Entre plantões e sobrecarga: como a rotina médica pode afetar a saúde mental

Setembro Amarelo reforça a importância de olhar para a saúde mental de profissionais que enfrentam jornadas intensas, privação de sono, pressão constante e pouco tempo para cuidar da própria saúde

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Cuidar da saúde de outras pessoas faz parte da rotina dos médicos, mas, em meio a plantões, consultas, decisões clínicas, responsabilidades administrativas e atualização profissional, nem sempre há espaço para que esses profissionais olhem para a própria saúde. A combinação de jornadas intensas, pouco tempo de descanso, alimentação inadequada e a pressão de lidar diariamente com a vida de outras pessoas pode provocar um desgaste progressivo, tanto físico quanto mental.

O médico pode assumir diferentes papéis ao longo de um mesmo dia. Além do atendimento aos pacientes, pode ser responsável por coordenar equipes, tomar decisões administrativas, lidar com situações de pressão e manter-se atualizado diante das constantes mudanças na área da saúde. No caso dos profissionais que trabalham em plantões e escalas intensas, esse cenário pode ser ainda mais desafiador, especialmente pela privação de sono e pelo curto período destinado à recuperação entre uma jornada e outra.

Para o Dr. Jhones Araújo, especialista em Nutrologia, a rotina de trabalho excessiva, associada à privação do sono, à má alimentação, ao estresse e à alta intensidade das atividades, pode levar a um processo de desgaste físico e mental. Segundo ele, a dificuldade de encontrar tempo para atividades físicas e para os próprios cuidados de saúde também contribui para esse cenário.

“O profissional que trabalha com plantões e tem essa carga intensa mal tem tempo para cuidar da própria saúde. Ele, muitas vezes, não consegue fazer uma atividade física, não consegue fazer uma caminhada e continua com privação do sono. Com essa carga intensa, ele fica mais vulnerável a quadros de ansiedade, estresse e depressão”, explica o especialista.

Além dos impactos emocionais, o médico destaca que esse desgaste também pode estar relacionado a alterações físicas, como o aumento de peso. Para ele, a combinação entre estresse, sono inadequado, alimentação desregulada e ausência de atividade física pode comprometer progressivamente a qualidade de vida.

Mais do que um período de cansaço após uma sequência de plantões, a persistência desses sinais merece atenção. Ansiedade, crises de pânico, medo de ir ao plantão e até dificuldade ou resistência em conversar e se relacionar com outras pessoas podem funcionar como sinais de alerta de que o profissional precisa buscar ajuda.

Para o Dr. Jhones, um dos problemas é que médicos podem ter resistência em procurar apoio, inclusive por acreditarem que conseguem lidar sozinhos com a situação. A automedicação também é apontada pelo especialista como um risco importante, principalmente quando utilizada como tentativa de controlar sintomas relacionados ao cansaço, à ansiedade ou à dificuldade para dormir.

“Quando o médico começa a observar quadros de ansiedade, pânico, medo de ir ao plantão ou até medo de conversar com pessoas, isso já acende um alerta. Esse profissional precisa entender que não precisa enfrentar isso sozinho e que o acompanhamento com outros profissionais, como psicólogos, também é importante”, orienta.

O especialista alerta ainda que a automedicação pode trazer consequências graves, especialmente quando envolve medicamentos que provocam sonolência ou alterações no estado de consciência. Por isso, sintomas persistentes não devem ser tratados por conta própria, sem avaliação e acompanhamento profissional.

Nesse contexto, é importante diferenciar o cansaço comum, o estresse relacionado ao trabalho e condições como a síndrome de burnout. O acompanhamento com profissional de saúde mental pode ajudar a identificar o que está acontecendo e orientar estratégias adequadas para cada situação.

A discussão sobre saúde mental dos médicos também passa pelas condições de trabalho. Escalas excessivas, jornadas prolongadas, falta de pausas e ambientes em que o profissional não se sente seguro para comunicar dificuldades podem contribuir para o adoecimento. Ao mesmo tempo, existem cuidados individuais que podem ajudar a reduzir os impactos de uma rotina intensa e favorecer uma melhor qualidade de vida.

Mesmo diante de uma agenda de plantões, o Dr. Jhones recomenda que o médico reserve momentos para cuidar de si, incluindo a prática regular de atividade física, uma alimentação adequada e períodos de sono e descanso de qualidade. Segundo ele, esses cuidados precisam fazer parte da rotina e não ser deixados de lado em razão da carga de trabalho.

“Mesmo tendo uma rotina intensa, fazendo plantões e com sobrecarga de trabalho, o médico precisa ter um tempo para ele. É importante fazer atividade física, musculação ou cardio, dormir bem no período que tiver disponível e se alimentar corretamente”, afirma.

A alimentação durante os plantões também merece atenção. De acordo com o especialista, principalmente em jornadas noturnas, existe uma tendência de aumento do consumo de alimentos menos adequados e maior dificuldade para controlar a fome. Uma estratégia alimentar organizada pode ajudar a evitar esse padrão e, a longo prazo, reduzir o risco de ganho de peso e compulsão alimentar.

Outro ponto destacado pelo médico é a importância de avaliar a própria escala de trabalho. Para ele, a busca por maior rentabilidade não deve fazer com que o profissional ignore os limites do próprio organismo.

“Tudo isso precisa de estratégia: controlar o estresse, dormir o período que tiver para dormir, dormir bem e se alimentar corretamente. É importante ter uma escala que seja favorável para ter qualidade de vida e não focar somente no dinheiro e na rentabilidade, porque é preciso ter saúde para viver e cuidar das outras pessoas”, destaca.

Setembro Amarelo

Criado no Brasil em 2015, o Setembro Amarelo é uma campanha de conscientização sobre a prevenção do suicídio e a promoção da saúde mental. Ao longo do mês, a iniciativa busca ampliar o diálogo sobre sofrimento emocional, sinais de alerta e a importância de procurar ajuda especializada.

No caso dos profissionais de saúde, a discussão ganha uma dimensão ainda mais relevante diante de rotinas marcadas por plantões, pressão, privação de sono e pouco tempo para o autocuidado. Para os médicos, reconhecer os próprios limites e buscar apoio quando necessário também faz parte do cuidado com a saúde e pode contribuir para a manutenção da qualidade de vida ao longo da carreira.

A orientação é que profissionais que percebam sinais persistentes de ansiedade, pânico, alterações no sono, dificuldade de lidar com o trabalho ou outras mudanças que estejam interferindo na rotina procurem apoio de profissionais qualificados. O cuidado pode envolver acompanhamento psicológico ou psiquiátrico e, quando necessário, outras estratégias definidas de acordo com cada situação.

A saúde mental do médico, portanto, não deve ser tratada apenas como uma questão de resistência individual. O cuidado também envolve as condições de trabalho e as instituições onde esses profissionais atuam, com medidas que favoreçam o diálogo, o descanso adequado, a segurança psicológica e o acesso a apoio.