É um cansaço de seda. Olho para a tela e vejo rostos que não piscam, sorrisos que se fixaram como gesso sobre a carne. Todos estão tão desesperadamente felizes que me pergunto: onde guardaram o resto? Porque a vida, a vida verdadeira, é um resto. É o que sobra entre um clique e outro; é a unha encravada, o mofo no canto da parede, o silêncio que precede o grito.
Nas redes sociais, as pessoas se oferecem em fatias. Mas fatias de uma fruta de plástico, que não tem sumo, não tem semente, não apodrece. É uma imortalidade de pixels que me dá náuseas. Eu queria dizer a eles: "Aproximem-se do abismo". Pois só no abismo é que a gente se toca. Mas eles preferem o ângulo, o filtro que apaga a olheira e, junto com ela, a história da noite mal dormida — que era a única coisa real naquela cara.
Sinto que estamos todos numa sala de espera, fingindo que a festa já começou. Mas a festa é um deserto. É uma fome que não se mata com imagens de banquetes. Eu olho para aquela foto de uma mulher rindo diante do mar e não vejo o mar, vejo apenas o esforço hercúleo de não ser triste. Que cansaço deve ser, meu Deus, sustentar essa arquitetura de alegria sem ter onde encostar a alma.
A felicidade virou um objeto de uso, como um sapato que aperta mas que a gente ostenta porque é bonito. Mas eu não quero a beleza do sapato; eu quero o pé que sangra. O pé que caminha. O que me assusta não é a mentira, é a limpeza. Tudo é tão limpo, tão higienizado, que não há lugar para o mistério. E sem mistério, a gente não vive, a gente apenas dura.
Talvez o que busquemos ali, naquela luz azulada que nos ilumina no escuro do quarto, seja uma prova de que existimos. "Alguém me viu, logo eu sou". Mas é um engano. No momento em que a imagem nasce, a gente morre um pouco. Ficamos ali, presos naquela moldura, enquanto a nossa alma — aquela bicha arisca e faminta — foge pela janela, procurando um pedaço de pão velho para roer em paz, longe dos olhares.
Eu prefiro a dor de ser, que é vasta, à alegria de parecer, que é um cárcere. No fundo, todos sabemos: a verdadeira felicidade é um segredo que não aceita fotografia.









