Caminho dos Quilombos leva memórias e paisagens do Cerrado à CASACOR Tocantins 2026

Criação do artista plástico Divino Alcan reúne carvão, cerâmica, madeira e materiais reaproveitados para traduzir vivências de comunidades tradicionais do Estado

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Carvão, cerâmica, pedaços de madeira e arames que um dia fizeram parte da rotina das lavouras ganham outro significado pelas mãos do artista plástico Divino Alcan. Esses materiais compõem o Caminho dos Quilombos, espaço que estará presente na CASACOR Tocantins 2026, em Palmas, e leva para a mostra referências do Cerrado e das comunidades tradicionais que ajudam a formar a identidade do Estado.

A proposta nasce da matéria e das histórias que ela carrega. Em vez de apenas reproduzir elementos da natureza, Divino incorpora ao trabalho materiais que guardam marcas do território. A madeira preserva formas e texturas, o carvão estabelece uma relação direta com a terra e a cerâmica recupera uma técnica que atravessa gerações.

O arame acrescenta outra camada a essa narrativa. Materiais doados e reaproveitados de lavouras deixam para trás a função original e assumem formas escultóricas. O gesto de transformar aquilo que seria descartado aproxima arte e sustentabilidade sem apagar a procedência de cada peça. “Quando escolho esses materiais, não penso apenas na composição estética. Penso de onde eles vieram, nas mãos que já passaram por eles e no território ao qual pertencem. A madeira, o carvão, a cerâmica e o arame carregam memória. Meu trabalho começa quando encontro uma maneira de fazer essa memória falar”, afirma Divino Alcan.

Na CASACOR Tocantins 2026, o Caminho dos Quilombos insere essas referências em uma leitura contemporânea do espaço. A composição preserva a origem dos materiais e deixa visíveis suas texturas, marcas e imperfeições, elementos que aproximam a criação artística do território e das comunidades que inspiram o trabalho de Divino Alcan.

Essa aproximação também aparece na maneira como Divino trabalha o reaproveitamento. O artista preserva características originais dos materiais e encontra nelas parte da força visual da obra. O arame que veio da lavoura mantém vestígios de sua trajetória. A madeira conserva suas imperfeições. O carvão, com sua presença bruta, ajuda a construir uma paisagem que não tenta suavizar a natureza, mas reconhecê-la.

A presença do Caminho dos Quilombos na mostra abre ainda uma discussão sobre identidade na arquitetura e no design. No trabalho de Divino, o Cerrado não funciona como cenário ou referência decorativa. Ele está na escolha da matéria, nas texturas e na forma como cada elemento ocupa o espaço.

É também nesse ponto que a obra se aproxima das comunidades tradicionais. Mais do que representar seus territórios, o artista procura reconhecer conhecimentos, experiências e relações com a terra que atravessam gerações. A escolha dos materiais estabelece uma ligação entre o que permanece dessas histórias e as novas formas que elas podem assumir pela arte.

Para Divino, levar o Caminho dos Quilombos à CASACOR significa colocar essas histórias em circulação e permitir que sejam percebidas para além de seus lugares de origem. “Quero que as pessoas entrem nesse espaço e sintam que ali existe vida antes da obra. Existe a terra, existe quem plantou, quem construiu, quem resistiu e quem preservou saberes para que chegassem até nós. Quando transformo esses materiais em arte, não quero apagar o que eles foram. Quero que continuem contando de onde vieram. Porque um povo que reconhece as próprias raízes consegue olhar para o futuro sem perder o caminho de volta”, conclui o artista.