Saúde mental na terceira idade exige atenção da família e acompanhamento profissional

Especialista alerta que depressão, ansiedade, isolamento social e perda de autonomia não devem ser tratados como parte natural do envelhecimento

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O Brasil envelhece em ritmo acelerado, e essa mudança demográfica também amplia a necessidade de atenção à saúde mental da população idosa. Segundo o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o país já tem mais de 32,1 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, o equivalente a 15,6% da população brasileira. Em 2010, esse grupo representava 10,8%. No Tocantins, são mais de 184 mil pessoas idosas, cerca de 12,2% da população do estado.

Por trás desses números, há um desafio que ainda costuma ser tratado com naturalização, o sofrimento emocional na velhice. Sintomas como tristeza persistente, ansiedade, isolamento, perda de interesse pelas atividades cotidianas, alterações no sono, irritabilidade e descuido com a aparência não devem ser vistos apenas como “coisas da idade”. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, (OMS) cerca de 14% dos adultos com 70 anos ou mais vivem com algum transtorno mental, e solidão e isolamento social estão entre os principais fatores de risco para problemas de saúde mental nessa fase da vida.

Para o professor Railson de Freitas, docente da Afya Palmas e do curso de pós-graduação em Psiquiatria da Afya Educação Médica Palmas, um dos principais desafios é perceber que, entre idosos, a depressão e a ansiedade nem sempre aparecem da mesma forma que em pessoas mais jovens.

“Diferente dos jovens, o idoso muitas vezes não demonstra diretamente a tristeza. As manifestações costumam aparecer como dores que não melhoram, fadiga, insônia, isolamento progressivo e preocupações excessivas”, explica.

Um estudo baseado na Pesquisa Nacional de Saúde de 2019 estimou em 13,2% a prevalência de sintomas depressivos entre pessoas idosas no Brasil. A depressão, segundo a Organização Pan-Americana da Saúde, é um transtorno comum, mas sério, capaz de interferir na vida diária, no sono, na alimentação, na convivência e na capacidade de aproveitar a vida.

Quando a tristeza vira sinal de alerta

Sentir tristeza após perdas, mudanças de rotina ou eventos difíceis é uma reação humana. O alerta, segundo Railson, deve ser acionado quando esse quadro se prolonga e passa a comprometer a vida cotidiana.

“A tristeza por um evento específico é natural, mas, se o desânimo persiste por mais de duas semanas e impede o idoso de realizar tarefas que antes eram corriqueiras, como cuidar da casa ou conversar com os netos, é hora de procurar um profissional”, orienta.

A família também deve observar mudanças no padrão de comportamento. Um idoso que era vaidoso e deixa de se cuidar, que costumava conversar e passa a ficar recluso no quarto, ou que apresenta alterações bruscas de apetite, sono e irritabilidade, pode estar dando sinais de sofrimento emocional.

A visão de que esse sofrimento seria “normal da idade”, reforça o professor, é perigosa porque atrasa o cuidado. “Aceitar o sofrimento como parte do envelhecimento impede que o idoso busque ajuda e retome sua qualidade de vida”, afirma.

Isolamento, luto e perda de autonomia

O envelhecimento pode trazer perdas sucessivas, morte de amigos e familiares, saída dos filhos de casa, aposentadoria, redução da renda, mudanças na rotina e limitações físicas. Esses processos, quando não acompanhados por rede de apoio e cuidado adequado, podem ampliar sentimentos de desamparo.

“O idoso vive diversos tipos de luto. São perdas de amigos, dos filhos que seguem suas vidas e do emprego. Muitas vezes, ele fica sem uma função social clara, o que pode gerar sentimentos de desamparo”, destaca Railson.

O isolamento social também afeta a saúde física. Revisão publicada na literatura científica aponta que o isolamento na velhice está associado à redução do bem-estar, piora da saúde e maior vulnerabilidade emocional.

Segundo o professor, a solidão crônica pode contribuir para piora de comorbidades comuns nessa fase da vida. “O isolamento acelera o declínio cognitivo e aumenta o risco de demências. Fisicamente, a solidão crônica eleva os níveis de cortisol, o que piora o controle da hipertensão e do diabetes, entre outras comorbidades comuns na idade”, explica.

A perda de autonomia é outro ponto sensível. Quando familiares passam a decidir tudo pelo idoso — finanças, deslocamentos, rotina, alimentação, consultas — sem diálogo, a intenção de proteger pode produzir efeito contrário.

“A autonomia está ligada à identidade. Quando o idoso é impedido de decidir sobre suas finanças ou locomoção de forma abrupta, ele pode sentir que sua utilidade acabou, o que pode contribuir para o adoecimento”, afirma.

Doenças crônicas e dor também impactam emoções

A relação entre saúde física e mental é direta. Doenças crônicas, dor persistente, limitações funcionais e dependência para atividades diárias podem aumentar o risco de sintomas depressivos e ansiosos. Ao mesmo tempo, a depressão pode dificultar a adesão ao tratamento, reduzir a disposição para consultas, atividade física e autocuidado.

“A dor crônica é um dos maiores preditores de suicídio e depressão em idosos. As doenças crônicas aumentam a possibilidade de sintomas depressivos e vice-versa”, alerta Railson.

A família deve procurar ajuda médica ou psiquiátrica com urgência quando houver risco de autoextermínio, recusa alimentar, negligência com higiene pessoal, confusão mental, perda de memória associada à alteração de humor ou falas relacionadas à desesperança e desejo de morte. O Ministério da Saúde orienta atenção a sinais como comentários sobre morte, sensação de inutilidade, culpa, falta de autoestima e visão negativa do futuro. Em situações de sofrimento emocional intenso, o CVV oferece atendimento gratuito e sigiloso pelo telefone 188, 24 horas por dia.

Rede de apoio sem infantilização

O cuidado com a saúde mental na terceira idade passa por acompanhamento profissional, mas também pela forma como familiares e amigos se relacionam com a pessoa idosa. A presença da rede de apoio é fundamental, desde que não retire do idoso seu lugar de decisão.

“Ofereça ajuda, não substitua a ação. É preciso ouvir o idoso e respeitar suas escolhas, mantendo-o como protagonista da própria vida, mesmo que ele precise de supervisão”, reforça Railson.

Entre os cuidados protetivos, o professor destaca a atividade física regular, respeitando a capacidade de cada pessoa, a convivência social, a manutenção de vínculos afetivos e a preservação de um sentido de propósito.

“Ter um propósito é o melhor protetor cerebral”, afirma.

Para Railson, buscar ajuda não deve ser visto como fraqueza, mas como uma decisão de cuidado e qualidade de vida. “Mente e corpo são indissociáveis. Cuidar das emoções aos 70 ou 80 anos não é sinal de fraqueza, mas de sabedoria para aproveitar o tempo que resta com qualidade. Não há idade limite para voltar a sentir alegria e ter paz mental”, conclui.